Golden Boy: Vivendo e aprendendo

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O mundo lá fora é uma grande sala de aula…

O ser humano é uma criatura que a todo momento está em processo de aprendizado sobre alguma coisa ao seu redor, seja sobre o comportamento de seus semelhantes perto dele, sobre o ambiente em que ele está, sobre os costumes e cultura do povo do qual ele faz ou não parte e demais conceitos. Às vezes, simplesmente sabemos que certas coisas são como são porque simplesmente são, e não questionamos as razões ou origens dessas respostas.

Golden Boy, um dos trabalhos mais famosos do relativamente respeitado (e odiado por outros) Tatsuya Egawa, foi publicado entre 1992 e 1997 na revista “adulta” Super Jump em 103 capítulos que foram compilados num total de 10 volumes. Muitos do nicho de mangás e animes conhecem a série por causa dos 6 episódios em animação para o mercado caseiro (ou “OVA” se você preferir chamar assim) que ficaram bem populares pela internet, e no Brasil, foram um dos primeiros animes legendados a serem distribuídos entre os fãs da mídia (e na Rússia, essa animação ajudou a popularizar animes e mangás por lá). Apesar de Golden Boy ter essa fama, não são muitos os que se aventuram no mangá que deu origem aos seis episódios animados que muita gente gosta.

Por incrível que pareça, é esse aí o cara que vai salvar o Japão... ou quem sabe o mundo, né?

Por incrível que pareça, é esse aí o cara que vai salvar o Japão… ou quem sabe o mundo, né?

A premissa inicial de Golden Boy é simples: no mangá, acompanhamos as viagens de Kintaro Oe, um maluco de 25 anos de idade que resolveu abandonar a faculdade e viajar pelo Japão inteiro como um “Freeter” (termo que os japoneses usam pra pessoas que vivem de fazer bicos por aí pra se sustentar), trabalhando de vários jeitos e conhecendo inúmeras pessoas e locais diferentes, para enriquecer sua existência e fazer do mundo sua grande sala de aula para viver e aprender.

Nos primeiros capítulos (boa parte dessas primeiras histórias são adaptadas nos OVAs, vale lembrar), sempre temos essa estrutura episódica nos ensinando algo sobre como Kintaro reage às mais diversas situações. Ele sempre chega no seu novo local de trabalho, conhece as pessoas de lá, se envolve com alguma mulher que mora lá, coisas acontecem, ele faz alguma coisa incrível pra se redimir, e após sentir que já aprendeu o que havia pra ser aprendido lá, sai e toma rumo para outro local pra fazer de seu campo de estudo sobre a vida.

Essa estrutura vai se diluindo aos poucos em prol de uma premissa maior, onde vamos tendo arcos de história mais longos e que geram grande impacto na storyline principal. Outros personagens vão recebendo a luz dos holofotes, que até então era quase exclusiva de Kintaro e boa parte desses outros personagens sempre o fazem se deparar com algo novo a ser aprendido e superado. E sempre que nosso herói absorve os conhecimentos daquela situação, ele sempre profere a frase que é seu maior bordão: “eu aprendi algo novo”… e então anota em seu sagrado caderno, o qual protege com todas as suas forças (ele realmente valoriza aquela frase que muitos de nós possivelmente já ouvimos de algum familiar ou professor que diz algo como “podem roubar tudo de você, menos o conhecimento”).

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Um comentário deve ser feito sobre o mangá: Golden Boy funciona bem melhor como objeto de estudo ou comentário social do que como história sendo narrada em si. Bem frequentemente os personagens tocam em temas “delicados” para a sociedade japonesa. A obra ganha bastante força nesse aspecto se pesquisarmos e soubermos do contexto social em que o país estava inserido nos anos 90. Infelizmente, boa parte dessas mensagens se tornam um pouco de difícil compreensão para nós ocidentais ou que não estamos familiarizados com o contexto da época em que a série foi publicada. Podemos interpretar como se Egawa tivesse lançado seus pensamentos sobre a sociedade daquele tempo através de seu mangá.

A premissa inicial de Kintaro abandonar os estudos tradicionais já meio que funciona como uma crítica ao sistema educacional japonês, que devido a toda sua rigidez de seus métodos inadequados sem necessidade, prejudica a já inserida habilidade de aprendizado que todos nós temos, como se simplesmente virássemos peças de um sistema maior, sem pensar por nós mesmos, mas por tudo que “nos fazem engolir” academicamente falando. E durante o mangá inteiro, a questão de qual é o método certo de aprendizado, ou como “seria bom se não existisse o senso comum e as pessoas criassem suas próprias conclusões a respeito das coisas” são debatidas e expostas pelos personagens e pelas histórias e contextos nos quais estão inseridos. Golden Boy é um mangá majoritariamente sobre: Aprendizado, livre arbítrio, pensamentos e a humanidade em geral e seu contexto social.

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Outro assunto muito abordado na série é a sexualidade e a liberdade que gira em torno da mesma. Há muitas, MUITAS MESMO, cenas de sexo durante o mangá inteiro e algumas atirando pra todos os lados possíveis em termos de fetiches e modalidades utilizados. Acho que li poucos mangás que abordam o sexo e seu contexto social do jeito que GB aborda e possivelmente as cenas de sexo que existem nesse mangá são “escancaradas” do jeito que são. Os personagens suam, gritam, choram, gemem, se abrem (nos dois sentidos da expressão) sem muita cerimônia ao contrário de muitas outras obras do gênero (tá que tem uma cena em que isso acontece, mas nela isso é contextualizadíssimo e faz parte do “ponto” a ser exposto pelo autor, não irei explicar por motivos de spoiler, mas é, por sinal, uma das melhores cenas do mangá inteiro).

Para a apreciação correta dessas cenas de sexo, é importante saber como os japoneses costumam ser bastante reprimidos em relação a esse assunto… não só eles, mas em muitas culturas, liberdade sexual é meio que enxergada como “tabu” e considerado algo “sujo” ou “impuro”, quando na verdade é nada mais que algo extremamente natural do nosso ser e é parte de quem somos (afinal, sem o sexo, não teríamos nascido, não é mesmo?). Mesmo nas cenas que “pegam mais pesado”, esse contexto está lá, como expressão de humanidade, como expressão de satisfação ou até como ferramenta de controle social (afinal, se todos sentem desejos e fariam certas coisas para ganhar esses desejos em troca, ele poderia ser usado dessa forma também, como mostrado em algumas partes do mangá)

Olhando só por essas capas dá pra imaginar que tem alguma coisa do que eu falei aí nesses parágrafos?

Olhando só por essas capas dá pra imaginar que tem alguma coisa do que eu falei aí nesses parágrafos?

Há alguns parágrafos atrás, quando disse que Golden Boy funciona melhor como comentário do que como narrativa, eu realmente não estava brincando (eu realmente gostaria de explorar essa parte dos comentários sociais e psicológicos dele num outro texto um dia com spoilers, fica para outra ocasião). Em GB, todos esses debates filosóficos acabam sendo bastante carregados e, mesmo possuindo relação direta com a história principal, faz a mesma parecer um mero detalhe em algumas passagens. Apesar de ser uma história divertida e que prende a nossa atenção para vermos no que vai dar e conhecermos melhor esses personagens, a parte comentário dele é tão forte que parece “sugar” a sustância da história principal. Não é muito incomum notar incoerências ou estranhar o comportamento de determinados personagens no meio da trama. Algumas dessas coisas possuem justificativa, outras ficam realmente confusas cronologicamente, mas o comentário ajuda a guiar essa história e dá contexto a quase tudo nela, pois se não fosse por isso, Golden Boy seria simplesmente um mangá apenas sobre um cara que viaja por aí e conhece pessoas com fetiches muito inusitados e pensamentos ideológicos sobre o mundo e o povo diferentes entre si, mas ele é mais que isso, bem mais.

Infelizmente, esse mangá tem um outro grave problema com sua história: ela não possui uma conclusão digna e a série acaba extremamente em aberto e muito abruptamente (acho que poucos mangás que li na vida terminam de forma tão abrupta quanto esse). Ao terminar de ler as últimas páginas, não dá pra saber se foi cancelado, se Egawa realmente quis acabar ali (o que eu duvido, apesar de existir a possibilidade) ou se ele resolveu tacar o foda-se pra tudo ou se não sabia mais o que fazer com a obra que já havia crescido tanto. 13 anos após a finalização da publicação, chegou a ser publicada uma pequena sequência de 2 volumes chamada “Golden Boy II”, que infelizmente não pude ler ainda, mas que pesquisando internet afora, vejo que sofreu uma forte rejeição do público (assim como o final da série original). É uma pena, pois a obra deixa um grande gosto de “quero mais”, mesmo com todos os seus problemas. Apesar da falta de uma conclusão, consigo dizer que o resto da jornada valeu muito a pena, mesmo com os seus trancos e barrancos.

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Não acho que Golden Boy é o tipo de mangá que eu recomendaria abertamente pra todo mundo. É algo bastante ame-ou-odeie, é bem difícil ficar indiferente com o que tem ali, para bem ou para mal. É o tipo de mangá que você tem que estar bastante predisposto e de mente aberta pra ler e absorver o que ele tem a ensinar e exibir, é diferente de muitas coisas que já li na vida e bastante único por isso, e parando pra pensar, até pende um pouco ao experimentalismo ao tentar alcançar os temas que alcança. Há ideias bastante interessantes ali para servirem de objeto de análise social ou psicanalítica. Acho que assim como o jovem Kintaro Oe, também aprendi algo novo com essa história.

Se procura uma obra que “pense fora da caixa”, é um mangá altamente recomendado, mesmo que você acabe não gostando dele ao ler, se procura apenas uma diversão descompromissada, a animação de seis episódios pode ser uma boa pedida (além de ser bem mais recomendável para todo mundo, ao contrário da obra original)

Disclaimer: Eu sei que até o momento da publicação deste post, o mangá ainda não terminou de ser traduzido pro inglês na internet (falta apenas o último volume), mas mesmo assim, ainda acho que a leitura compensa. Eu tive que ler o último volume em japonês mesmo, mas ainda assim, acho válido ler mesmo com a scan ainda não terminada. A leitura vale mais a pena pelo desenrolar e pela jornada do que por uma “conclusão”

[ATUALIZAÇÃO DO DIA 13/05/2015: Enfim, terminaram de traduzir o mangá pro inglês. Agora não tem mais desculpa pra não ler, viu, galera…)

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Nintakun dá graças por ter ido ler o mangá de Golden Boy só agora depois de adulto (pois ele já conhecia a série desde os 14 anos quando viu os OVAs pela primeira vez) porque scertamente não é o tipo de coisa que conseguiria digerir quando mais novo. Podemos dizer que mesmo com suas grandes imperfeições, foi um aprendizado único.

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6 comentários sobre “Golden Boy: Vivendo e aprendendo

  1. Eu estou lendo o mangá Golden Boy nesse exato instante por recomendação sua. Eu já conhecia os 6 OVAs, mas nunca tinha lido o mangá. Eu posso dizer que está sendo uma experiência muito prazerosa. Explicando melhor: Golden Boy está sendo o mangá certo nesse momento certo da minha vida. Eu me identifico muito com os ideais do protagonista Kintaro Oe de querer conhecer novas pessoas e ajudar elas no caminho de sua jornada e além disso eu adoro as mulheres e o jeito feminino delas de pensar e fazer as coisas (principalmente o componente sexual que atrai os homens em uma relação homem e mulher). Então como eu disse ler Golden Boy está sendo um prazer muito grande para mim. Muito obrigado pela recomendação.

    PS: Depois de ler alguns volumes de Golden Boy, o que eu devo fazer em dois ou três dias, eu vou voltar aqui para comentar na sua postagem sobre Golden Boy a minha opinião do que eu estou achando do mangá. Muito obrigado mais uma vez e até mais!

    • Só de ver que alguém já foi ler acho que já fez valer a pena eu ter escrito esse texto!! 😀

      Pior que curiosamente, também peguei Golden Boy pra ler num momento certo da minha vida, caiu como uma luva em algumas coisas da minha vida pessoal atual, mas deixado isso de lado, eu gostei honestamente da obra, mesmo com os defeitos gravíssimos que listei no texto, e acho que por eu estar com a cabeça aberta a novas ideias, absorvi melhor o mangá e foi uma ótima experiência assim mesmo.
      Espero que goste, e mesmo que não goste do desenrolar, pode comentar aí depois o que achou de boas que ficarei grato em ler a sua opinião sobre.

  2. Olá meus parabéns pelo ótimo texto essa obra me cativou desde o começo pena que eu só achei até o capítulo 16 traduzido para o português vc poderia me falar onde eu posso encontrar o restante do mangá.Agradejo desde já.

    • Em português eu acho que realmente não tem muito além disso, mas em inglês o grupo Kindan no Aku fez o resto das traduções da série e pode ser facilmente encontrado em sites de leitura online por aí. (ou se quiser baixar, vai no madokami ou pode me mandar uma mensagem direta no Twitter no meu @Nintakun, pedindo o link que eu tenho umas cópias reservas pra casos assim hahaha)

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