Watership Down

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Acho que dificilmente vou ver coelhos da mesma forma agora…

Uma parte bem vocal da internet possui uma vertente maluca de exagerar quanto à percepção de certas coisas: é só ver o caso do bacon (que é gostoso, mas longe de ser a segunda vinda de Cristo na Terra como dizem) e da Nutella (que eu particularmente, acho bem sem graça). Independente de essas coisas serem gostosas ou não pra você, não dá pra negar que existe a reação exagerada, e com entretenimento não poderia ser diferente, lógico, e o filme Watership Down sofre um pouco desse desserviço da internet o qualificando como algo que ele não é, mas sofre negativamente.

Watership Down é um filme de animação de 1978, baseado no livro de mesmo nome escrito por Richard Adams em 1972, e apesar de ser um filme relativamente obscuro, ganhou fama na internet por ser uma animação “perturbadora” e “extremamente sanguinolenta” protagonizando coelhos (e basicamente, foi assim que eu ouvi falar do filme). Não sei ao certo porque a internet tem essa reação exagerada aos conteúdos do filme, talvez seja pelo mesmo motivo do bacon e da Nutella citados no parágrafo anterior e por alguns destes terem sido apresentados ao filme quando crianças, e, convenhamos que um desenho animado com cenas de coelhos morrendo em poças de sangue não é algo lá muito apropriado para se mostrar às crianças, mas toco nesse ponto mais à frente.

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O filme conta a história de um bando de coelhos que parte numa jornada em busca de outro lugar pra viver, após um dos seus habitantes, Fiver, ter visões proféticas de que algo muito ruim irá acontecer com o lugar onde vivem e que eles correm grande perigo se permanecerem ali, e então, ele e seu irmão, Hazel (que se torna o líder do grupo), resolvem reunir alguns dos membros do bando que acreditam em suas palavras para fugirem e se salvarem. E durante a jornada, eles deverão conquistar um novo território e passarão pelos mais variados perigos, como, cachorros bravos, gatos famintos, humanos perigosos com espingardas à mão, gaviões, coelhos inimigos e muitas outras coisas pra conseguirem chegar a seu objetivo.

Uma adjetivo que certamente não podemos usar para qualificar Watership Down seria “pomposo”. O filme é bem cru, seco e organicamente estranho e podemos dizer até que ele é meio feio (tanto em termos técnicos quanto em conceituais). Você muito provavelmente já deve ter visto algum filme animado com bichos falantes na vida, e Watership Down é outro, porém com uma abordagem diferente e tenta mostrar a natureza como ela, de fato, é. Tanto que por isso que temos as cenas violentas do filme, afinal, são animais fazendo o que naturalmente fazem, lutar pela sobrevivência. A internet exagera falando que é um dos filmes animados mais graficamente violentos que existem, e pra quem não conhece o filme, isso é um desserviço ao mesmo. (eu mesmo fui assistir pensando que ia ver um Hokuto no Ken com coelhos, mas pra minha agradável surpresa, as cenas mais violentas somadas não contabilizam nem uns 4 ou 5 minutos de filme dos 100 que ele tem, além de ser uma violência bastante contextualizada e em momento algum, gratuita)

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Por ser uma adaptação literária, o filme teve uma matriz pra tentar reproduzir os conteúdos dela em outra mídia, e dá pra notar que há momentos em que a transição da narrativa não parece ter sido transportada do jeito mais adequado, apesar de que tentaram. Ainda não tive contato com o livro de onde saiu a história, mas pelo que dizem, nele a caracterização e distinção dos personagens, que acaba sendo algo meio fraco no filme, com poucos personagens recebendo destaque demais e outros ficando de fora (o próprio Fiver, por exemplo, só tem grandes momentos no começo e próximo ao fim do filme, no resto da história ele praticamente se torna um coadjuvante da mesma), porém, no livro, dizem que a narrativa é bem mais forte nesse aspecto e explora melhor os personagens. O que é bem compreensível, pois é difícil arrumar espaço e organizar tudo para condensar toda a história de um livro de centenas de páginas num filme de 100 minutos. Eles modificaram a história na adaptação tornando-a mais “plot-driven” do que no livro, que é bem “character-driven” (eu realmente queria um termo em português pra essas duas expressões, sério…).

O filme se abre com uma pequena passagem contando o mito de El-ahrairah, que para os coelhos, é uma espécie de figura mitológica, tal qual um herói grego ou coisa do tipo. No mito, é contado que o mundo foi criado pelo deus Frith, que representa o Sol, e nesse mundo, haviam vários animais vivendo pacificamente, entre eles, os coelhos, que liderados por El-ahrairah, se proliferaram de maneira descontrolada e foram acabando com a comida e os recursos dos outros animais, que, desesperados, suplicaram a Frith para que El-ahrairah controlasse seu povo e pusesse ordem na porra toda, mas este, ignorou o aviso e, então, Frith deu aos outros animais, inúmeras armas para caçar os coelhos, como presas, garras e coisas do tipo. Os orelhudos foram sendo exterminados um após o outro até que sobrasse apenas o seu líder, que, vendo a queda do seu domínio na natureza, aprendeu a sua lição, e ganhou os dons que os coelhos possuem hoje, como a destreza nos movimentos e a percepção aguçada do ambiente para que consiga sobreviver.

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É interessante que essa introdução nos mostra que os coelhos do filme possuem um grande e rico folclore e seus próprios costumes e expressões. Há passagens do filme em que as proezas de El-ahrairah são mencionadas pelos personagens como uma inspiração para eles, como um herói deles (ou anti-herói, dependendo do ponto de vista, afinal, por culpa dele que a natureza ficou agressiva). Porém, no filme isso acaba ficando meio mal-aproveitado, enquanto no livro, aparentemente há muito mais espaço para relacionar a aventura dos personagens às variadas histórias do coelho mitológico, e essa é talvez a maior ferramenta de roteiro da obra original para dar força ao desenvolvimento dos personagens. Infelizmente, é algo que não deu pra resgatar de lá pra colocar no filme. Podemos dizer que, como filme isolado, Watership Down brilha bem mais do que como adaptação, e os que já leram o livro antes, provavelmente irão se decepcionar e sentir falta dessas coisas ao ver o filme (apesar de que muitos conheceram o livro por causa do filme, então… acho que é um caso meio raro).

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Além desse folclore inspirador, o filme toca em temas como confiança, companheirismo, busca pela liberdade, morte, sacrifícios heróicos. Constantemente, os personagens são expostos a situações perigosas em que devem contar com a ajuda uns dos outros para sobreviver, mas ainda assim, às vezes não é o suficiente e algum deles acaba morrendo no processo de uma maneira bem “boba”, tipo coisas como um gavião pegando um coelho do nada, ou tomando um tiro de espingarda numa fazenda, ou algum deles falha ao fugir de um gato, e coisas que naturalmente fariam um coelho morrer. E após esses incidentes, os heróis dessa jornada lamentam a morte de seu companheiro mas seguem em frente rumo ao seu não muito claro objetivo para que o sacrifício do mesmo não tenha sido em vão.

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Watership Down muito provavelmente não será um filme que irá mudar a sua vida. Ele tem boas ideias, mas está bem longe de ser uma obra-prima e possui seus problemas. Apesar disso, ainda assim, é uma experiência bem inusitada e diferente. A mensagem dele é forte, e apesar de a internet muitas vezes vendê-lo como um filme de terror com coelhinhos bonitinhos, ele não é nada disso. Mesmo sendo um filme de 1978, ele até resistiu bem ao tempo, apesar de ter sido outra vítima de problemas de ritmo que assolam muitas adaptações literárias para o cinema até hoje e é uma experiência válida. Não é espetacular, mas acho válido dizer que é um bom filme e vale mais pelo conceito do que pela execução. É um tanto estranho, mas talvez essa estranheza dele seja causada por ser algo bem diferente das muitas animações com animais falantes que estamos acostumados a ver desde nossas infâncias (e é engraçado que uma animação dessas saiu em 1978, uma época em que não era muito comum ver animações voltadas pro público adulto).

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Nintakun, apesar de ter achado Watership Down um filme meio esquisito em alguns aspectos, gostou do que viu no filme, e mesmo não sendo um cara com lá muito saco pra ler livros, ficou interessado no mesmo e tá com dificuldade em pensar em alguma piada envolvendo coelhos pra encerrar o texto. Não tá fácil pra ninguém.

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Um comentário sobre “Watership Down

  1. Nossa, Hokuto no Ken com coelhos, pagaria pra ver isso. Mesmo depois de tudo que falou acho que vou ver pela curiosidade. Mas a premissa me lembrou muito a série Animais do Bosque dos Vinténs, que passava na TV Cultura na década de 90.

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