Silent Hill 2 – Dissecação, interpretações e análise

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A viagem pela mente de um homem.

Silent Hill é uma daquelas franquias que fez escola e ditou coisas que muitas outras coisas que vieram posteriormente seguiram ou tentaram reproduzir, mas que hoje, aparentemente passa por maus bocados (mas que num futuro não tão distante, poderá voltar com tudo). Resolvi tirar os jogos da série da minha lista que todos nós temos de “jogos que todo mundo jogou, menos eu” e até o data da escrita deste texto terminei o faladíssimo segundo jogo da franquia (considerado por muitos fãs, o melhor deles), e é dele que irei falar aqui, pois é, de fato, um título bem único que merece atenção especial.

Mas por que SH2 é tão amado e considerado por muita gente, um dos melhores jogos de horror? O que tem de tão especial nele para merecer tantos elogios? Muita coisa, pra falar a verdade, e estou aqui pra falar do que esse jogo tem de tão especial que merece atenção.

Mecânicas de jogo como ferramenta narrativa

Por mais que há quem discorde, videogames podem ser um poderoso meio pra se contar histórias. É bem plausível dizer que a narrativa de um jogo nada mais é que a junção entre vários de seus elementos. Ao contrário do que pode-se pensar, não são só textos, dublagem, cutscenes ou videozinhos que compõem a narrativa de um jogo. A jogabilidade, as mecânicas, o level design, as músicas e efeitos sonoros, os cenários, entre outras coisas numa harmonia com os elementos anteriormente citados podem ser considerados a narrativa de um jogo.

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Caso não tenha jogado, aqui vai um pequeno resumo da história só pra te situar: James Sunderland vai até a cidade conhecida como Silent Hill porque recebeu uma suposta carta recente de sua esposa que faleceu há 3 anos, dizendo para ele voltar para Silent Hill e encontrá-la no “lugar especial deles”. Intrigado com essa carta na esperança de reencontrar sua amada mulher, James vai atrás de pistas sobre seu paradeiro na misteriosa cidade cheia de neblina.

Podemos dizer que Silent Hill 2 inteiro é uma análise de personagem. O espécime analisado aqui é James Sunderland e o jogo utiliza todos esses artifícios narrativos que a mídia videogame lhe oferece para nos mostrar quem é esse cara, irmos tomando nossas conclusões a respeito de seus atos, conhecer melhor a sua mente, entender seu sofrimento, sua angústia e seus desesperados desejos de reencontrar sua amada.

SH2 caminha numa linha bem diferente da trilhada pelo primeiro jogo. Em SH1 vimos Harry Mason lutando contra forças externas para chegar até seu objetivo, enquanto em SH2, que é um jogo completamente independente do anterior, James trava uma longa jornada em combate consigo mesmo e seus sentimentos se manifestando das formas mais grotescas possíveis para chegar até seu objetivo ( esse último é um ponto que vou deixar para explorar melhor daqui a alguns parágrafos).

Os aspectos do gênero “survival-horror” são muito discutidos hoje em dia. O que faz um jogo ser considerado algo do gênero? O que jogos como “Eternal Darkness – Sanity’s Requiem”, o primeiro Dead Space e as franquias Resident Evil e Silent Hill possuem de especial que os tornaram ícones de referência dentro desse gênero que parece ter meio que se perdido em seu caminho original há uns tempos e agora parece ter descoberto novos caminhos a seguir depois de ter ficado estagnado por um longo período.

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Para cumprir seu papel, jogos que lidam com horror, devem criar um clima de tensão, mistério e questionamento, e para dar força a esse sentimento, eles podem tirar proveito de variados recursos narrativos. O primeiro Silent Hill, por exemplo, usava de uma maneira bem inteligente a limitação técnica de hardware do PS1 a favor de sua narrativa, usando a névoa e a escuridão quase total para dificultar a visão do jogador, e deixá-lo tenso/preocupado/com medo de seguir adiante sem saber o que lhe espera no caminho rumo a seu objetivo e assim, criar a tão procurada atmosfera opressora que jogos do gênero buscam oferecer em suas histórias. (e tudo isso volta no 2, de uma maneira ainda melhor explorada)

Há várias maneiras de se contar uma história num jogo de horror, varia de cada título em especial. No caso da série SH, as histórias costumam ser sobre personagens em conflito com uma força muito maior que eles, mostrando como eles possuem pouca força diante de uma situação dessas. Há quem reclame que a jogabilidade e a câmera são ruins, mas acabam sendo assim meio que de propósito para enfatizar o quão desprovido de poder é seu personagem naquela situação. Por isso que seus movimentos de combate costumam ser limitados, enquanto as criaturas a seu redor possuem bem mais mobilidade que você. Se colocassem um ser humano com altas capacidades de luta, não seria mais um jogo de horror, mas sim de ação. O que fazem aqui então? O seu protagonista é uma pessoa qualquer, sem nenhum tipo de habilidade extraordinária, e isso torna a luta contra o conflito mais complicada. É um bom caso de como uma mecânica de gameplay pode se unir à narrativa para fortalecer a experiência de jogo.

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Vários fatores culminam nesse resultado final que temos que é a sensação de desprovimento de poder, tensão, nojo, incômodo, angústia, e por aí vai… A jogabilidade e os movimentos “normais” do seu personagem, os ambientes extremamente escuros onde você mal enxerga um palmo à sua frente se não tiver uma lanterna acesa, os lugares apertados repletos de monstros, o rádio chiando quando tem algo perigoso por perto. Tudo isso te deixa em estado de alerta durante o jogo inteiro e tornando o seu produto uma experiência imersiva que ganha ainda mais força por ser interativa e requerer a participação do jogador.

(bom, acho que a partir dessa seção, o texto estará repleto de spoilers da história jogo. Sugiro fortemente que vá jogar antes de continuar lendo isso aqui. Estarei analisado os personagens e algumas nuances do enredo)

 

“Conflito”

O principal tema de Silent Hill 2 é a jornada que fazemos como jogadores dentro da mente de James Sunderland e seus problemas internos. Pode haver dificuldade para distinguirmos o que é real e o que é produto da mente de James e o jogo deixa várias questões em aberto para discussão, mas algo que o jogo parece deixar bem claro é que a grande maioria das coisas que vemos nessa cidade maluca são coisa da cabeça do nosso protagonista. Os monstros, o layout de certos lugares, outras áreas com passagem bloqueada, a aparição de certas pessoas na história e a forma como essas coisas todas aparecem.

James é um cara “normal”, mas com sérios problemas pessoais, que busca a saída disso tudo no reencontro com a mulher e é atormentado por seus medos, frustrações, angústias, culpa e demais sentimentos, que, se manifestam na forma dos mostros que encontramos durante o jogo. Dá pra falar bastante das criaturas e que cada uma delas representa algo, não só pra James, mas para outros personagens, que vêem a cidade de Silent Hill com outra perspectiva (só notar um dos diálogos do jogo, quando James encontra a pequena Laura e pergunta o que ela faz sozinha numa cidade cheia de monstros e é respondido com “que monstros? Não sei do que você está falando”) e podem ou não estar vendo as mesmas coisas que James.

Um caso interessante é o do personagem Eddie Dombrowski, o gordinho que você encontra vomitando num banheiro localizado no prédio que você explora mais ou menos na primeira hora do jogo. Em tese, ele é um cara normal também e que, assim como James, também passa por vários problemas, mas diferentes dos passados pelo protagonista. Enquanto James lida com frustração sexual, dor da perda da mulher, culpa entre outras coisas, Eddie lida com insegurança, paranóia e ódio das pessoas à sua volta, causados provavelmente pelo bullying sofrido por ele em seu passado, como ele mesmo menciona em uma passagem do jogo.

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Eddie e James carregam semelhanças entre si. Ambos são personagens perturbados por algo e seu passado e estão como se numa jornada de descoberta sobre si mesmos em Silent Hill. Com a diferença de que Eddie toma o mau caminho e pensa apenas em si mesmo e não se importa nem um pouco com os outros, a exemplo da cena em que Laura vai embora do centro de boliche e ele não dá a mínima e continua comendo sua pizza como se nada estivesse acontecendo (e James vai atrás da menina, mas sem sucesso). O gordinho funciona como um contraste ao protagonista da história, ao mesmo tempo que carrega semelhanças com ele.

De cenas relavantes envolvendo Eddie, temos duas mais à frente: uma na prisão onde ele aparentemente acabou de matar um outro homem só porque ele “olhou feio pra ele” e o encontro final, no Labirinto onde você deverá lutar com ele para sobreviver e seguir seu caminho. Em seu encontro final com Eddie, vemos que ele é um sujeito bastante reacionário e desconfiado (causa de sua paranoia de achar que todos são ameaçadores pra ele). O cenário é uma espécie de frigorífico e vemos alguns cadáveres no recinto, provavelmente mortos por ele e rola um diálogo onde ele fala mais de seu passado e do bullying que sofria e aí entendemos como isso o deixou perturbado a ponto de ele ter decidido se tornar uma pessoa violenta por isso e que matará qualquer um que cruzar seu caminho, e obviamente, James não é exceção à regra e acontece uma das batalhas mais tensas do jogo (que por sinal lembra muito uma que tem no primeiro Silent Hill, mas que não vem ao caso agora) e após alguns tiros, ele se retira para outro local. Dessa vez, temos um ambiente escuro que ainda lembra um frigorífico, mas com pedaços de carne que lembram tórax e então, não se há outra escolha a não ser lutar por sua vida e matar Eddie logo depois de ele confessar mais alguns de seus atos repugnantes e explicitar o quão parecidos ele e James são. E então, James entra em choque por ter sido obrigado a passar pela situação de ter de matar outro ser humano, e isso é mais explorado durante o jogo mas abordarei em outro tópico mais à frente)

 

Angela, a mensageira de Deus

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Um personagem problemático que cruza o caminho de James é Angela Orosco, a mulher depressiva, solitária e com tendências suicidas que James conhece no cemitério a caminho de Silent Hill. Assim como Eddie, Angela também tem seus atuais problemas psicológicos causados por traumas de seu passado, sendo que enquanto o gordinho sofria com bullying, seu comportamento extremamente defensivo (assim como até suas roupas, que cobrem o corpo todo e sua linguagem corporal e voz em tom inseguro denunciam) é consequência de abusos sexuais por parte do pai, como podemos concluir a partir da cena com ela que podemos ver na parte do Labirinto, sendo que o layout do cenário nos dá essa pista também (a sala onde a encontramos possui vários buracos pelas paredes com coisas parecidas com “pistões” se movendo pra dentro e pra fora, muito provavelmente em referência simbólica ao ato sexual).

Ainda sobre Angela, outro ponto curioso para analisarmos na personagem é a faca que ela nos dá em nosso segundo encontro com ela, no mesmo prédio em que encontramos Eddie. Nesta cena, a vemos deitada no chão de frente a um espelho com a faca (suja de sangue, por sinal) na mão contemplando a ideia de se matar. E descobrimos que ela veio até Silent Hill em busca da mãe e eles têm uma breve conversa sobre o assunto e no final da cena, Angela sai do local e entrega a faca para que James mantenha sob sua custódia, pois nas mãos de Angela e seus impulsos suicidas, essa faca poderia representar perigo.

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Essa faca carrega um grade peso na história da personagem, afinal, foi com essa arma que ela matou o pai e o irmão que abusavam dela. Angela é uma boa pessoa, mas cometeu essa atrocidade em reação desesperada a todo o abuso que sofreu durante anos e agora sente-se culpada por isso e paradoxalmente, sente que se ela sofreu isso, é porque acha que mereceu, e busca se aproximar da morte para aliviar seu sofrimento, tanto que na primeira vez que a encontramos, ela está distraída em seus próprios pensamentos num cemitério, lugar onde muitas pessoas normalmente se sentem desconfortáveis, ela parece aceitar que morrer é seu destino, quando na verdade, algo dentro dela ainda a faz resistir contra suas ideias (tal qual uma pessoa com depressão e impulsos suicidas na vida real costuma se sentir).

Curiosidade: a faca fica com você até próximo do fim do jogo, e se você a examinar no inventário frequentemente, isso libera caminho para um dos 4 possíveis finais sérios do jogo. Olhar com frequência para essa faca pode causar a James a vontade de se matar para se livrar de seu sofrimento, da mesma maneira como Angela se sente. Além de olhar para a faca, não se curar de danos críticos imediatamente durante os combates pode encaminhar a história para isso. Isso ocorre numa simbologia de que James não liga mais para a própria vida e deseja a própria morte, e se seguir o jogo inteiro agindo assim e olhando para a faca, no final “In Water”, James confessa seus atos contra Mary, sua mulher, e se mata logo em seguida, como uma espécie de “auto-punição” em busca da redenção que tanto procura… mas vou explorar isso mais adiante.

A última cena em que Angela aparece é uma das passagens mais carregadas de simbolismo em Silent Hill 2 todo. Nela vemos Angela a alguns degraus acima de James subindo escadaria com muito fogo em volta e impulsivamente, Angela começa a se dirigir ao protagonista da história o confundindo com sua mãe, até que ela volta a si e percebe que não é ela que está ali e aceita que não vai mais conseguir o que quer. Em um dado momento dessa cena, Angela pede de volta a faca que deu no começo do jogo e James diz que não. Após essa resposta, a moça imediatamente indaga “guardando para si mesmo, é?” (referência ao final “In Water”, possivelmente) e daí, dá as costas e continua a subir a escadaria até que a cena se encerra com as seguintes falas

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James: “Está muito quente aqui”

Angela: “Você consegue ver também? Para mim, sempre foi assim.”

E então, ela segue seu caminho e vai embora para sempre. Essa cena representa a libertação de Angela, finalmente ela está livre desse inferno que foi a sua vida e pode subir à paz do paraíso. (por isso a escadaria está em chamas e ela está subindo para sair desse lugar). Por sinal, o nome “Angela” vem da palavra grega “ángelos”, que significa “mensageiro de Deus”, e durante o jogo inteiro a vemos sendo retratada como uma pessoa pura, que constantemente foi enganada e ferida pelos outros e se sente culpada por isso, mesmo sendo uma boa pessoa até que nessa cena, a vemos de baixo enquanto ela está num plano superior em sua ascensão até a libertação. Tal como um anjo.

 

Uma mente atormentada

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Agora que já tirei as outras coisas do caminho, posso finalmente falar mais de James e sua mente, que é nos mostrada durante o jogo inteiro. Boa parte do que ele vê enquanto o controlamos durante SH2 é fruto de sua cabeça e é meio difícil distinguir o que é real do que não é às vezes. Aqui é onde o jogo abre o maior número de discussões sobre simbolismos, narrativas, entre outras coisas. Que o senhor James Sunderland é um cara bastante perturbado nós já sabemos, mas afinal, que diacho ele foi fazer em Silent Hill? Como ele recebeu a carta da mulher se ela estava morta?

Silent Hill 2 é uma grande viagem pela cabeça desse cara e além disso tudo, podemos até ver como uma história sobre redenção e confissão. Próximo ao final do jogo, sabemos que James matou sua mulher para “aliviá-la” de seu sofrimento decorrente da terrível doença que ela sofria. E após matar sua mulher, destrutivos sentimentos de culpa, frustração, ódio, rancor e angústia tomam conta dele até que ele resolve ir até Silent Hill, usar a cidade como uma espécie de purgatório pessoal para seus crimes. Afinal, o que ele vivenciou em Silent Hill foi real ou não?

A cidade em si é real, mas boa parte do que ele viu por lá não é. Personagens como Eddie e Angela que também estavam por lá por seus próprios motivos pessoais são reais. Numa possível interpretação, podemos identificar Angela como um lado puro e bom mas é uma pessoa completamente distorcida, ao contrário de Eddie, que é uma pessoa maligna e repugnante (ambos se tornaram distorcidos psicologicamente por influência dos ambientes em que viveram), ao passo que James é um cara meio perdido que não sabe exatamente qual sua situação e como deve lidar com seu sofrimento, coisa que vai descobrindo ao longo do jogo com sua ajuda, jogador.

Maria

Se você já jogou algum jogo da série “Shin Megami Tensei”, muito provavelmente já pegou a ideia que mandei no parágrafo anterior, mas simplificando um pouco: Angela representaria a busca pela lei, pela ordem e a bondade (o céu). Eddie representaria o mal, a violência, a gula, e o egoísmo (o inferno). James é “neutro” na situação, mas como sabemos que ele fez merda no seu passado, tá meio que pendendo pro caminho do inferno em algumas passagens, e como sabemos que ele também busca sair desse pesadelo embebido de culpa, também pode rumar para o purgatório, como é mostrado em outras. (as transformações da cidade dão indicação disso também)

Voltando ao James, recorda-se de quando mencionei que os monstros que ele vê em Silent Hill são fruto de seus sentimentos internos? Cada uma das criaturas representa alguma parte de suas frustrações. Aquele primeiro monstro que você vê no começo quando você pega a sua primeira arma (que é o monstro do tipo dos que aparecem em maior número durante o jogo todo) é basicamente uma projeção geral do sofrimento vivido por sua mulher. Esse monstro parece estar preso numa espécie de camisa de força, e se você reparar bem, a parte inferior de seu corpo remete à figura nua de um corpo feminino, como a prisão que era a doença de sua mulher. Até o fato do monstro jogar uma espécie de ácido em você pode ser associado às crises de vômito que sua mulher tinha durante o tempo que esteve doente.

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O tema das frustrações da vida sexual de James é algo também muito recorrente no jogo. Não só o já citado monstro como alguns outros remetem a isso. As enfermeiras com vestimentas sexualizadas que representam o ambiente que James ia (com muita ansiedade) para ver sua mulher, os manequins unidos pelas cinturas que representam os impulsos de James e até mesmo Maria, que é uma versão eroticamente idealizada de Mary, sua mulher, como numa projeção de como James às vezes a via em seus mais libidinosos desejos. Mary é uma personagem com um grande papel na narrativa do jogo, mesmo que ela possa não ser real e nos mostra muito sobre a relação dele com sua mulher. Há um número considerável de criaturas, então não vou me extender falando de todas elas, mas um que merece atenção especial é…

 

Cabeça de Pirâmide: o executor

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(Agora vou me referir a ele no texto como Pyramid Head em inglês mesmo porque é assim que o povo conhece)

Ah, o Pyramid Head. Provavelmente a criatura mais assustadora do jogo inteiro e que, futuramente, seria reduzida a um “símbolo” da franquia, como uma espécie de mascote, desvirtuando-se totalmente do seu significado original. Enfim, voltando ao contexto do Silent Hill 2, que é onde realmente importa falar dele, o Pyramid Head funciona como uma criatura que te persegue durante o jogo inteiro, mais ou menos como o Nemesis no Resident Evil 3, só que ao contrário deste, o PH carrega uma história bem maior por trás dele, o que, na minha opinião, o torna mais perturbador e assustador (se bem que não faz muito sentido ficar comparando Resident Evil com Silent Hill pois são dois jogos com pegadas bem diferentes, mas foi só pra ilustrar mesmo)

Assim como os outros monstros do jogo, o cabeça de pirâmide é uma projeção dos sentimentos de James. Esse capacete em formato piramidal e suas roupas remetem à figura do carrasco, que executa aqueles que cometeram crimes e foram sentenciados, mas antes disso, lhes causar medo e angústia. Esse monstro representa os desejos insaciados por punição por seus crimes que James sente e sempre aparece para lembrá-lo do que fez.

Nos encontramos com ele em alguns momentos do jogo, mas em todos que você é submetido a ter que lutar com ele, repare em como que, ao contrário dos outros monstros, ele não pode ser morto e sempre depois que toma uma quantidade considerável de pancadas/tiros, vai embora. Isso pode significar por mais que James lute com força bruta, ele nunca conseguirá se livrar do carrasco que o persegue e assombra e algumas vezes, ele mata Maria durante o jogo. Na cena do elevador do hospital, no labirinto (não é mostrado de maneira explícita, mas é possível que tenha sido) e no Lakeview Hotel após assistirmos à fita de Mary.

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Uma outra análise que podemos fazer do Pyramid Head é que ele está na história para, de alguma forma, conduzir James até seu destino, que é a aceitação da realidade de seus atos. E dois momentos específicos do jogo dão força a esse argumento: O primeiro é após a “luta” com ele no apartamento e ele vai embora drenando a água para que você possa passar, já o segundo é no Hospital, quando você vai ao terraço e ele derruba James de surpresa fazendo com que ele caia em uma nova área que lhe trará pistas de como sair dali (e que é totalmente inacessível, a não ser por esse meio)

Apesar de que, durante os combates, o Pyramid Head não poder ser morto, nos minutos finais do jogo, quando James luta contra os dois Pyramid Heads ao mesmo tempo (mesmo após mais de 10 anos após o lançamento de Silent Hill 2, a existência deste segundo Pyramid Head ainda é bastante discutida pelo público. Uns discutem que provavelmente ele surgiu pelo sentimento de culpa por James ter matado outro ser humano, que no caso é Eddie, e outros podem dizer que ele surgiu por causa de sentimentos divididos do personagem, que ao mesmo tempo que busca esquecer a morte de Mary, busca também encarar o problema de frente), ao final do combate, como de costume, eles não morrem, porém, acontece outra coisa: eles se matam. Isso pode sugerir o momento em que James finalmente tem a aceitação dos seus atos, logo os cabeça de pirâmide não possuem mais propósito de existir e se vão.

 

A Jornada rumo ao perdão ou à perdição?

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Mais que um grande survival horror, Silent Hill 2 é um grande exemplo de como videogames são uma ferramenta poderosa para transmitir mensagens e criar ambientes imersivos para testemunharmos. O maior mérito do jogo é, sem dúvida alguma, conseguir tocar em vários temas (alguns deles “pesados” até) com uma grande sutileza e, se pensarmos que esse jogo saiu em 2001, é mais assustador ainda lembrar que esse jogo trata certos temas que muitas coisas hoje não conseguem, como por exemplo, sexualidade, tema que é meio mal explorado pela maioria dos jogos que o tentam. Enquanto eu vejo o primeiro Silent Hill como um jogo que soou mais como uma “resposta” ao sucesso de Resident Evil (talvez por não ter datado tão bem assim, apesar de que ele ainda faz o trabalho dele direito até), o segundo jogo se mostrou uma obra bastante ousada e elaborada que conseguiu abocanhar o que almejou com classe.Definitivamente um jogo a ser lembrado.

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 Silent Hill 2 foi o primeiro Survival Horror que deixou Nintakun, que é um dos caras mais corajosos que existem quando se fala de jogos assim, tenso e sem saber muito o que fazer às vezes a ponto de que ele ficava aliviado ao tentar abrir uma porta qualquer enquanto explorava e ela estar trancada só pra não olhar o que tinha lá dentro.

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6 comentários sobre “Silent Hill 2 – Dissecação, interpretações e análise

  1. Silent Hill 2 foi um dos melhores jogos de survival horror que eu já joguei em minha vida. Toda a questão sobre os monstros que atacam o protagonista serem baseados nas frustrações sexuais dele e na culpa pela morte da esposa só reforçam a genialidade do jogo! Eu me lembro de ter jogado na época de lançamento e ter ficado muito impressionado com clima de suspense e a história séria e com alusões sexuais! E também me lembro da alegria que foi encontrar a chave do cachorro e ter aberto a porta certa com a chave para ver o final secreto! Muito divertido esse final! Silent Hill 2, um clássico e um dos melhores jogos dentro desse estilo e que todo gamer que também jogou Resident Evil ou que não jogou deveria também jogar! Silent Hill 2, um prazer obrigatório!

    • Idem aqui, apesar de que só fui poder jogar pela primeira vez na semana passada, auahuahuahauh e mesmo assim gostei muito do jogo. Faz jus à fama toda que tem. Acho-o muito mais do que um simples survival-horror, mas também uma forte análise de personagem como mencionei no texto. Como se, ao contrário de muitos jogos do gênero, onde você enfrenta monstros pra sobreviver, em SH2 é quase como se você mesmo fosse o monstro na história. Bem assustador se pensarmos que esse jogo saiu em 2001. Bem à frente do seu tempo.

  2. Ótimo texto, não sabia dessa curiosidade da faca, muito interessante.
    E confesso que sempre gostei mais do Silent Hill 3, mas acho os personagens do 2 melhores. Pobre Angela, aquela cena final dela foi bem triste (não só essa cena, a história dela em si, já que a vida dela foi um inferno e tudo mais…).

    • Até o momento, só joguei o 1, o 2 e um pouquinho do Shattered Memories. Os outros jogos da série pretendo jogar futuramente. A Angela é um dos personagens com uma das histórias mais fortes do jogo inteiro, realmente gosto de como que, se analisarmos, tem bem mais coisa por trás dela que agrega muito conteúdo aos temas do jogo. É fascinante.

  3. Esse jogo é simplesmente fascinante. Leio muito sobre ele, e nunca me canso de ler diferentes interpretações pela internet. A teoria de que o corpo de Mary estava no porta malas do carro desde o começo do jogo, e a teoria de que James também está morto desde o começo do jogo são as minhas favoritas.

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