Depression Quest

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Até onde vai o experimentalismo da mídia interativa?

Se você acompanha o cenário atual do mundo de desenvolvimento de jogos independentes, talvez tenha ouvido falar do comentadíssimo escândalo sexual envolvendo a indie dev Zoe Quinn. que está sendo, desnecessariamente, comentado à exaustão pela “comunidade gamer” (puta que pariu, como odeio esse termo). Bom, muito se fala sobre a Zoe atualmente, e provavelmente isso tudo será esquecido daqui a não muito tempo depois desse texto ser publicado, então isso que comentei nas linhas anteriores pode ser até irrelevante, mas do jogo feito pela Zoe em questão, não estão dando a devida atenção. E que jogo é esse? Um título que saiu no Steam gratuitamente há pouco tempo chamado “Depression Quest”.

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O nome já chama a atenção, não é mesmo? Ver isso na página inicial do Steam com um nome desses foi o que despertou o meu interesse pra ir ver do que se trata. Um bom exemplo de como um nome eficiente e chamativo pode atrair a atenção do público para o seu produto.

(curiosidade inútil: numa coincidência bastante engraçada, joguei no mesmo dia em que o escândalo envolvendo a desenvolvedora começou a ser espalhado internet afora poucas horas após eu ter jogado e ter parado pra ver que raio de assunto era esse que muitos no Twitter e no 4chan, entre outros lugares, tavam comentando tanto, mas não vou entrar nesse mérito, até porque o meu amigo Dácio já escreveu um texto sobre esse assunto aqui no blog, vou me focar em falar apenas do jogo mesmo) 

Pois bem, do que se trata Depression Quest? Basicamente, é um jogo altamente experimental baseado em texto em que você é posto numa história sobre uma pessoa que convive com essa terrível doença que é a depressão. Uma pessoa normal, como eu ou você (até certo ponto, acreditamos), mas que vive nessa constante luta contra a própria mente todos os dias. E você vai conhecendo o dia-a-dia desse cidadão a cada texto que passa pelo jogo mais e mais.

Uma experiência um tanto quanto estranha, mas ao mesmo tempo única e com umas decisões de design bastante sutis para algo do gênero, porém, interessantes se notadas. Como já mencionado, o jogo inteiro funciona à base de texto. Há uma pequena imagem absurdamente minimalista e relacionada de maneira pequena ao texto daquela página. No texto temos a descrição da cena que está rolando na história e a  maioria delas acaba com o jogo te dando algumas opções para escolher e dar rumo diferente na história do personagem vivido por você (quase como numa visual novel… só que sem o visual). Mas bem, nessas escolhas surge, o que pra mim, é o que há de mais interessante em Depression Quest.

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Observe esse pequeno screenshot do jogo (tirado da própria página do Steam, por sinal). As frases numeradas são as opções que você pode escolher e o texto escrito nas barras cinzentas é o estado mental do seu personagem, se ele está passando por terapia, como ele está se sentindo consigo mesmo, e coisas do gênero. Bom, mas o que tem pra reparar de tão “estranho” nisso? Observe as opções numeradas e veja como as duas primeiras estão em vermelho e riscadas. O papel de Depression Quest é ser uma experiência imersiva para que os  que não sofrem com a doença, entendam como funciona a mente de alguém que sofre de depressão. No contexto dessa cena, o seu personagem está dialogando com uma velha conhecida que encontrou, e ela resolve perguntar se está tudo bem ao reparar no comportamento estranho. No mundo real, uma pessoa com depressão dificilmente iria se abrir e contar seus problemas ou buscaria ajuda. Para ela, buscar ajuda não é uma opção válida, apesar de isso sempre existir.

Dado o caráter, ouso dizer, educativo do jogo, esse sutil detalhe é uma mecânica eficiente na narrativa de DQ e enriquece o poder da obra em tentar ser uma experiência imersiva. Dependendo do estado mental de seu personagem, indicado pelos textos nas barras cinzentas como já foi explicado no parágrafo anterior, talvez alguma das opções riscadas torne-se válida, mas tudo vai depender do que você decidiu fazer antes disso. Seu personagem pode estar melhor pra tomar uma atitude que pode fazer bem a si próprio ou pode estar pior e talvez ter ainda menos opções à sua escolha e graças a isso, esse sistema pode possibilitar inúmeros finais diferentes para a sua história de acordo com suas atitudes.

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Que Depression Quest é um experimento bastante imersivo é algo de que não dá pra ter dúvida, mas vou ser bem franco aqui: apesar de ser uma experiência singular nessa mídia que tanto gostamos, eu honestamente não sei se recomendaria para todos. O jogo é bastante pesado e emocional, e enquanto jogava, houveram momentos em que eu realmente me senti muito mal, como se estivesse levando umas pontadas no peito (pra vocês verem como foi eficiente a imersão), senti vontade de respirar forte e sair da frente do computador pra caminhar um pouco dentro de casa e por aí vai. Não sei se é porque em um breve período da minha vida eu senti um pouco do gosto da depressão  e me identifiquei com alguns problemas vividos pelo personagem (mas felizmente, hoje não tenho mais isso) e isso me atingiu diretamente, mas independentemente disso, nota-se que aqui é um exemplo notável de como pequenas escolhas de design pode tornar o seu jogo uma experiência bastante poderosa, mesmo que ele seja composto inteiramente de texto.

Vale lembrar também que, de verdade, o jogo não é nem um pouco recomendado pra pessoas que sofrem de depressão ou possuem tendências fortes a desenvolver a doença e mesmo pra quem não a tem, é uma experiência forte e não traz sensações boas ou divertidas que temos na maioria dos jogos que jogamos, e é justamente por isso que não sei se é o tipo de experiência que recomendo a todos. Eu não vou terminar esse texto falando para você abrir o Steam e baixar Depression Quest, mas sim dizer pra você ir por sua conta em risco sabendo mais ou menos do que vai encontrar lá. Apesar desses pesares, DQ é uma experiência bizarramente única que só a mídia interativa pode nos proporcionar.

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Não, Nintakun não transou com a Zoe Quinn para falar do jogo aqui, até porque a namorada dele lhe arrancaria o testículo esquerdo caso o fizesse.

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