17-sai.

 

Talvez vocês lendo esse post já tenham ouvido falar de Junko Furuta. Ela foi uma adolescente vítima de um crime repulsivo no final dos anos 80, no Japão. De forma resumida, ela foi raptada, estuprada e depois assassinada por um grupo de adolescentes. Os detalhes dessa história são ainda mais revoltantes, e se você tiver a coragem ou o interesse em ler, entre aqui ou procure mais sobre no Google. Há mais informações lá sobre os detalhes específicos. Não é algo que eu queira falar aqui.

Graças ao teor desse caso, ele ganhou certa notoriedade, recebendo atenção de diversas partes da cultura popular. Foram produzidos filmes, livros e mangás sobre esse tema, e é de uma dessas obras que o post se trata.

17-sai. é um mangá de Kamata Youji e Fujii Seiji, publicado em 2004 pela revista Manga Action, e durou 4 volumes. Ele é baseado no caso mencionado na introdução, mas toma várias liberdades em relação à história real, algumas spoiler e outras não, algumas mais relevantes, e outras menos. De toda forma, o mangá não tenta ser um relato fiel, criando uma história própria com uma mensagem própria baseado no caso.

Um detalhe importante é o foco narrativo da história. Ao invés de vermos os acontecimentos pelo ponto de vista da vítima, a história segue principalmente dois outros personagens. Um deles é a irmã de Sachiko (os nomes foram alterados na obra), Miki, que está tentando descobrir o que aconteceu com a irmã desaparecida, e o outro é Hiroki, um dos cúmplices do crime.

Isso permite a história a transmitir sua mensagem e seus momentos dramáticos com mais eficácia. Além de vermos o já óbvio sofrimento de Sachiko, acompanhamos o desespero de Miki enquanto ela tenta encontrar a irmã, e sua dificuldade em encontrar qualquer ajuda, enquanto também vemos o arrependimento de Hiroki conforme os dias do rapto passam, e mesmo assim seu medo de ser punido pelos comparsas o impede de fazer qualquer coisa para evitar que isso continue.

No lado gráfico, o mangá é bem simples, embora esteja longe de ser ruim. O traço e a quadrinização são pouco inovadores, mas possuem uma clareza ao retratar as cenas que faz bem a essa história (fato curioso: antes desse mangá ter sido completamente traduzido, eu achei que ele nunca o seria e fui olhar as raws. A quantidade de coisas que eu consegui captar só pelas imagens foi surpreendentemente alta, e eu acho que esse é um mérito  grande do mangá.). Embora não seja nada fora do normal, há páginas duplas ou inteiras que ganham força nesse conjunto. Não é perfeito, no entanto. Em alguns (poucos) momentos ele falha em dramatizar com capacidade algumas cenas, parecendo um pouco exagerado.

O ritmo da obra é um pouco lento; possivelmente ela teria como durar menos do que os 4 volumes que possui. Mas, embora às vezes dê sim,  uma sensação de estar enrolando, ele é efetivo ao construir o cenário em que a obra se passa, ao detalhar os sentimentos dos personagens e a gravidade da situação.

A mudança de foco também resulta em outra característica do mangá: ele é bem menos pesado graficamente do que a história real.  Isso também é algo que permite a história a ser mais abrangente em público e em temas, não se resumindo a mero shock value. No entanto, há outro mangá baseado nessa história que coloca essas cenas em detalhe, caso você tenha coragem.

Mas esse mangá não é assim. Embora ele nem de longe esteja isento de cenas violentas, até porque não teria como estar, a forma que esse mangá realmente atinge o leitor é ao mostrar o desespero de Sachiko ao não conseguir escapar. Ao mostrar cada falha oportunidade, cada dia que passa e sua situação parece cada vez mais irremediável. Cada momento em que Hiroki poderia ter salvo ela, mas não o fez por medo. Cada momento que ele fica cada vez mais enojado pelo acontecido, mas ainda não consegue sair. Cada momento que Miki fica mais longe de conseguir encontrar a irmã, cada momento em que ela não consegue encontrar ajuda, cada demonstração de desinteresse por parte dos outros, cada lembrança que ela tem das duas juntas.

É uma história sobre a falta de empatia dos outros, sobre momentos que poderiam ter mudado isso. Sobre porque isso aconteceu. Sobre porque isso não foi evitado. Hiroki poderia ter fingido que não a viu enquanto estavam a procurando enquanto ela  tentava fugir, mas ficou assustado demais com o que poderiam fazer com ele se descobrissem. A mãe de um dos adolescentes chegou perto de descobrir, mas foi ameaçada pelo filho e ficou com medo de continuar. A polícia demora a realmente se interessar pelo caso, questionando coisas que não precisavam ser questionadas. Uma das únicas pessoas que ajuda Miki em sua busca o faz graças a uma rixa com o executor do crime, pouco ligando para a vítima em si.

Mas ele também é sobre as duas irmãs, sobre a perseverança de ambas, sobre as pessoas que contribuíram, as pessoas que não viraram os olhos. Sobre mostrar tudo que aconteceu de errado e sobre não perdoar com facilidade cúmplices só porque eles se arrependeram.

É sobre tudo isso, e no final, ele é sobre algo que realmente aconteceu. Algo que realmente aconteceu e, surpreendentemente para quem não conhece a história, foi muito mais pesado que essa versão em mangá. Uma versão que, embora bem simples no seu lado técnico e estrutural, é incrivelmente eficaz.

É um ótimo mangá que vocês deveriam ler.

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2 comentários sobre “17-sai.

  1. Parece bem forte a história original mesmo. Sempre que vejo histórias fictícias lucrando em cima de alguma drama que realmente aconteceu as vezes fico com um gosto ruim na boca, como se isso fosse “errado”. Contudo, acho que no final do dia é mais importante transmitir a mensagem das coisas que aconteceram do que ficar na ignorância… então pelo menos isso se tem de bom (se não houver nada ofensivo ou explorador na obra também, né).

    O mangá pareceu interessante, mas não acho que seja algo que eu esteja no ~clima~ para ler ultimamente >.<"

    Vlw pela dica!

  2. Pingback: Mangá² #173 – 7º Torneio das Trevas: Mons | AoQuadrado²

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